
O caso do Banco Master colocou o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), no centro de uma das maiores controvérsias políticas e judiciais do país. Mensagens obtidas pela Polícia Federal mostram que o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) procurou diretamente Mendonça, em novembro de 2022, para tratar “com urgência” do caso do ex-governador Sérgio Cabral. Castro chegou a chamar o ministro de “amigo” e encaminhou documentos relacionados a pedidos de habeas corpus e alvará de soltura.
A revelação ganha outra dimensão diante das investigações do Banco Master, especialmente dos aportes bilionários realizados pelo Rioprevidência, fundo de previdência dos servidores do Rio de Janeiro.
Segundo a Polícia Federal, os investimentos do Rioprevidência no grupo Master chegaram a aproximadamente R$ 3,7 bilhões. A decisão que autorizou uma operação contra Castro apontou que o ex-governador teria mantido vínculo próximo com Daniel Vorcaro e exercido papel politicamente relevante para viabilizar os aportes.
O elo entre Castro e o Banco Master
A investigação apura investimentos de R$ 970 milhões em letras financeiras do Master e outros R$ 2,01 bilhões em fundos estruturados ligados ao grupo. A PF sustenta que esses mecanismos teriam servido para canalizar recursos para o banco, que enfrentava problemas de liquidez.
É nesse ponto que a relação entre Castro e Mendonça passa a ser politicamente sensível.
De um lado, Castro aparece nas investigações sobre os aportes do Rioprevidência. De outro, mensagens mostram o então governador recorrendo diretamente ao ministro para tratar de um processo judicial de seu interesse.
Isso não prova, por si só, que Mendonça tenha favorecido Castro. O ministro afirma que suas decisões são baseadas exclusivamente nos autos, enquanto a defesa do ex-governador nega qualquer pedido de interferência judicial.
ACM Neto e Rueda também entram no radar
O caso se amplia para a cúpula do União Brasil.
Uma proposta de delação de Daniel Vorcaro, que foi rejeitada pela PF e pela PGR e não foi homologada, contém acusações contra ACM Neto e Antônio Rueda. Segundo o relato atribuído ao banqueiro, os dois teriam atuado para facilitar a captação de recursos de institutos de previdência para o Banco Master em troca de comissões.
Os dois negam irregularidades e as acusações não constituem prova definitiva de crime.
A atuação de Mendonça também passou a ser questionada nesse núcleo. Informações divulgadas neste mês apontaram que a PF levantou suspeitas sobre a demora do ministro em autorizar medidas contra Rueda e também sobre a separação das investigações envolvendo Rueda e ACM Neto. Mendonça, por sua vez, afirmou que mantinha os procedimentos sob sigilo para não comprometer as diligências.
“Justiceiro” da direita?
É justamente a partir desse conjunto de episódios que surge a crítica política de setores da esquerda: a de que André Mendonça adotaria uma postura mais dura quando os alvos pertencem ao campo progressista e uma postura mais cautelosa quando as investigações atingem políticos ligados à direita.
A comparação ganhou força porque Mendonça autorizou, em junho, uma operação da PF contra o senador Jaques Wagner (PT-BA) no próprio caso Master. O STF informou que a medida investigava suspeitas de crimes financeiros, lavagem de dinheiro, corrupção e organização criminosa.
Ao mesmo tempo, no núcleo envolvendo nomes do União Brasil, surgiram questionamentos sobre a demora de medidas contra Rueda e sobre a separação das apurações envolvendo ACM Neto.
É esse contraste que alimenta a acusação política de que Mendonça teria se transformado em uma espécie de “justiceiro” contra a esquerda, enquanto seria mais protetivo com setores da direita.
O Banco Master e o dinheiro da previdência
A investigação também coloca uma questão ainda maior: por que recursos destinados à previdência de servidores públicos foram direcionados para um banco que posteriormente entrou em uma crise de grandes proporções?
No caso do Rio, a PF aponta que os aportes chegaram a bilhões de reais e que parte deles passou por estruturas de fundos relacionadas ao grupo de Vorcaro.
Por isso, mais do que uma disputa entre esquerda e direita, o caso Master envolve uma pergunta que interessa diretamente ao cidadão:
quem autorizou a utilização do dinheiro da previdência, quem se beneficiou dessas operações e quem tinha poder político para abrir essas portas?
Enquanto as investigações avançam, Mendonça permanece no centro da disputa. E a divulgação das conversas com Cláudio Castro, somada às controvérsias envolvendo ACM Neto, Antônio Rueda e os investimentos de fundos previdenciários, aumentou a pressão por transparência sobre a atuação do ministro.
O que precisa ser esclarecido não é apenas quem recebeu dinheiro, mas também quem abriu as portas, quem tomou as decisões e se a Justiça está tratando todos os envolvidos com o mesmo rigor.
Mín. 20° Máx. 31°





