
A paixão pelo futebol e pelo Esporte Clube Vitória levou um jovem de Madre de Deus, na Região Metropolitana de Salvador, a transformar uma experiência pessoal em uma mobilização pela inclusão e contra a LGBTfobia no esporte.
Aos 23 anos, Wendel de Queiroz é fundador da Orgulho Rubro Negro, torcida LGBTQIA+ do Vitória, criada em 29 de dezembro de 2019, quando ele tinha apenas 16 anos. O movimento começou com um grupo de WhatsApp e, em pouco tempo, ganhou espaço nas arquibancadas e passou a participar de debates sobre diversidade no futebol baiano e brasileiro.
A iniciativa nasceu de uma inquietação simples: Wendel não queria escolher entre ser torcedor e viver sua identidade. A proposta era justamente garantir que pessoas LGBTQIA+ pudessem ocupar as arquibancadas, vestir a camisa do clube e torcer sem precisar esconder quem são.
Em entrevista ao Correio 24 Horas, Wendel classificou a criação da torcida como um “ato de coragem extrema”.
Da arquibancada para a mobilização
Pouco depois da criação da Orgulho Rubro Negro, o grupo começou a apresentar propostas para combater a discriminação no futebol. Em janeiro de 2020, a torcida levou reivindicações à Federação Bahiana de Futebol, ao Ministério Público, à Arena Fonte Nova e à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Entre as pautas estavam o respeito à identidade de pessoas trans, o uso do nome social e a adoção de medidas diante de manifestações LGBTfóbicas nos estádios.
A atuação também passou a envolver encontros, ações culturais e iniciativas de ocupação das arquibancadas.
Um dos projetos de destaque é o “Sou Vitória com Orgulho: Meu Primeiro Barradão”, que busca aproximar torcedores LGBTQIA+ que nunca estiveram no estádio e transformar a primeira experiência no Barradão em um momento de pertencimento.
A torcida também promove o Paredão da Diversidade e outras ações no entorno do estádio.
Movimento ganhou dimensão nacional
A atuação da Orgulho Rubro Negro ultrapassou os limites do Vitória. O grupo integra o Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ+, que reúne torcidas de diferentes clubes em ações de enfrentamento à LGBTfobia no esporte.
Em 2024, a Orgulho Rubro Negro participou, ao lado da LGBTricolor e da Canarinhos, de uma ação conjunta com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) durante a passagem da Seleção Brasileira por Salvador.
No mesmo período, torcedores de Vitória e Bahia participaram do primeiro BAVI LGBTQ+, iniciativa que buscou transformar a tradicional rivalidade entre os dois clubes em uma mensagem de convivência e respeito.
A ideia defendida pelo movimento é resumida em uma frase: “A rivalidade faz parte do futebol. A LGBTfobia não.”
Jovem alia militância à formação acadêmica
Atualmente morando em Candeias, Wendel é estudante de História da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB). A formação acadêmica se soma à experiência construída desde a adolescência nas arquibancadas.
Ao longo dos anos, o jovem passou a atuar na organização de eventos, mobilização de torcedores e debates sobre direitos, diversidade e segurança para a população LGBTQIA+ nos espaços esportivos.
Em 2025, a Orgulho Rubro Negro esteve entre as organizações responsáveis pela realização do 1º Seminário Baiano de Combate à LGBTfobia no Futebol e Esportes.
Já em setembro de 2026, o movimento participou da segunda edição do seminário, realizada na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (FACOM/UFBA), que contou com apresentação de dados do Observatório da LGBTfobia no Futebol e discussões sobre inclusão e segurança nos espaços esportivos.
Da pequena cidade do Recôncavo para grandes espaços
A trajetória de Wendel começou ainda na adolescência, em Madre de Deus, mas ganhou novas dimensões ao longo dos últimos anos.
Poucos dias depois da realização do segundo seminário, a Orgulho Rubro Negro também integrou a programação da 23ª Parada do Orgulho LGBT+ da Bahia, em Salvador, com trio próprio durante o cortejo.
Para o movimento, a participação representa a transformação de uma iniciativa criada por um adolescente em uma organização que hoje ocupa arquibancadas, espaços de debate e manifestações públicas.
De Madre de Deus ao Barradão, e do Barradão para outros espaços da Bahia, Wendel construiu uma trajetória que une futebol, identidade e defesa de direitos.
Aos 23 anos, ele continua trabalhando para que mais torcedores possam viver plenamente a paixão pelo futebol, sem que a orientação sexual ou a identidade de gênero sejam motivo para exclusão ou violência.
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