
A relação entre ACM Neto (União Brasil) e Daniel Vorcaro ganhou nesta quinta-feira, 10 de setembro, uma acusação de outra dimensão. Em proposta de delação obtida pelo site UOL, o ex-dono do Banco Master afirmou que ACM e Antônio Rueda atuaram para levar recursos de fundos públicos de previdência e da Cedae ao banco em troca de 10% dos valores captados. Vorcaro fala em R$ 2 bilhões obtidos pelo Master e numa obrigação de até R$ 200 milhões com os dois dirigentes do União Brasil.
Segundo Vorcaro, o dinheiro destinado a ACM teria quatro caminhos: pagamentos em espécie por meio de pessoas e empresas ligadas a Augusto Lima e Antônio Freixo; contratos da A&M Consultoria com o Master; contratos da A&M com a Reag; e contratos com a B6 Capital. O banqueiro afirma ainda que se reuniu com ACM, Rueda e Augusto Lima na sede do Master para acompanhar “demandas” e “contrapartidas”. Em outra frente, sustenta que comissões relacionadas a negócios do BRB seriam divididas entre Rueda, o então presidente do banco público Paulo Henrique Costa e ACM.
O que já existe fora da palavra do banqueiro é uma trilha financeira documentada. Relatório do Coaf apontou que a A&M Consultoria, de ACM e sua mulher, recebeu R$ 3,6 milhões do Master e da Reag entre março de 2023 e maio de 2024. A empresa havia sido criada no fim de 2022 com capital social de apenas R$ 2 mil. O Coaf classificou a movimentação como expressiva e acima da capacidade financeira declarada. Documentos posteriores apresentados pelo próprio Master à Receita registraram R$ 5,45 milhões pagos pelo banco à A&M entre 2023 e 2025.
A proximidade também aparece em mensagens. Em 22 de maio de 2024, Vorcaro escreveu ao ex-ministro Fábio Faria que ACM havia ido à sua casa. Material obtido posteriormente pela Polícia Federal registrou o banqueiro dizendo que recebera “apoio total” de ACM depois do encontro, embora a corporação não tenha esclarecido o contexto da expressão. Meses depois, diante de reportagem sobre a mansão de Vorcaro em Trancoso, ACM confirmou ter estado uma vez em uma residência do banqueiro em 2024.
A relação financeira ia além da consultoria. ACM era o único cotista do Seattle 95, fundo administrado pela Reag até 2025. O Seattle aplicou cerca de R$ 4,8 milhões no Structure, constituído por empréstimos consignados originados pelo Master, e chegou a concentrar 98,6% de seu patrimônio nessa aplicação em fevereiro de 2023. ACM aportou R$ 7,92 milhões no Seattle; em outubro de 2025, o patrimônio alcançava R$ 11,94 milhões, diferença de R$ 4,01 milhões.
Outra notícia divulgada nas últimas horas amplia o contexto. João Carlos Mansur, ex-dono da Reag, afirmou em delação já fechada com a Procuradoria-Geral da República que fundos administrados pela gestora foram usados para ocultar pagamentos de propina de Vorcaro a autoridades públicas. O acordo ainda aguarda validação no Supremo. Mansur também aparece na cadeia financeira ligada ao fundo de investimentos do ex-prefeito.
Salvador entra nessa história antes dos pagamentos privados. Ainda quando ACM era prefeito, a Consiglog, ligada ao entorno empresarial de Mansur e de Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, obteve exclusividade na gestão da margem de consignados da folha municipal. Em 2021, já no governo Bruno Reis, o Decreto 33.502 reservou 10% da margem consignável dos servidores a uma modalidade de crédito rotativo vinculada ao Credcesta, negócio associado ao Master.
É justamente aí que a revelação de hoje acrescenta um elemento relevante. Vorcaro afirma agora que ACM e Rueda intermediaram negócios para o Master, cita expressamente o Credcesta e diz que os pagamentos eram tão recorrentes que os dois mantinham uma espécie de “conta corrente gerencial” de valores a receber. A proposta também afirma que contratos de consultoria serviriam para justificar contabilmente parte dos repasses.
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