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ACM Neto explicado por Sigmund Freud

ACM Neto explicado por Sigmund Freud

10/08/2026 às 21h02
Por: Redação
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ACM Neto explicado por Sigmund Freud

 

 

ACM Neto guardou para os segundos finais do debate da Band a frase que talvez tenha dito mais do que todo o discurso: “Quero ver a Bahia grande novamente”. Em inglês, a promessa cabe sem aperto no boné vermelho de Donald Trump: “Make America Great Again”. A tradução é quase literal. Se foi coincidência, ela trabalhou em perfeita sintonia com a política — porque o ex-prefeito também se aproxima, passo a passo, do candidato que herdou o bolsonarismo no Brasil, Flávio Bolsonaro.

O slogan de Trump é uma pequena máquina de fabricar saudade. Primeiro decreta que o país perdeu uma grandeza nunca localizada no tempo; depois oferece o líder como restaurador desse passado dourado. Grande quando? Grande para quem? A pergunta fica sem resposta porque a nostalgia funciona melhor no nevoeiro. Trump transformou a fórmula na marca de sua campanha. Acm trocou América por Bahia e preservou o “grande novamente”, com toda a carga política dentro.

A pergunta é irresistível: ato falho? Freud tratou desses tropeços em Psicopatologia da vida cotidiana. Na teoria freudiana, o lapso não seria um ruído sem sentido. Ele surgiria quando a intenção consciente é atravessada por outra, mantida fora do primeiro plano, mas ainda ativa. Uma palavra trocada, um nome esquecido ou uma frase inesperada abriria uma fresta por onde o inconsciente se manifesta. Freud, claro, não deixou um detector de mentiras para campanhas eleitorais. E, se a fala de Acm estava ensaiada, nem lapso houve: foi escolha.

A política concreta torna a escolha ainda mais reveladora. Neto entregou espaço formal ao PL em sua coligação e levou João Roma, presidente estadual do partido e aliado de Flávio, para a chapa como candidato ao Senado. Roma prometeu entrar “de corpo e alma” na campanha estadual sem abandonar Flávio Bolsonaro. Dias depois, afirmou abertamente que o senador apoia Acm.

É uma aproximação calculada para não parecer abraço. Acm precisa dos votos e da militância bolsonarista, mas sabe o preço de se apresentar como candidato de Bolsonaro num estado em que Lula recebeu mais de 72% dos votos válidos e venceu em 415 dos 417 municípios em 2022. Por isso, acomoda o PL na chapa, recebe o apoio de Flávio Bolsonaro e tenta manter o bolsonarismo a uma distância segura. Na hora decisiva, porém, a boca foi parar em Trump.

Há uma ironia adicional. Toda promessa de “grande novamente” esconde a saudade de algum passado. No caso de ACM Neto, herdeiro político e familiar do carlismo, resta saber qual Bahia ele pretende restaurar. Se for a Bahia em que seu grupo tratava o Estado como extensão do próprio poder, o slogan não aponta para o futuro. Apenas confessa a velha vontade de voltar.

Talvez Freud chamasse isso de desejo inconveniente atravessando o discurso. A política permite uma explicação mais simples: enquanto tenta fugir da fotografia com Flávio Bolsonaro, Neto encerra o primeiro debate falando como Donald Trump. Pode não ter sido ato falho. Pode ter dado certo demais.

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