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Problemas na educação municipal de Salvador fragilizam discurso de ACM Neto no interior

Caso no Rio Sena expõe contraste entre discurso do ex-prefeito e política educacional questionada pelo Ministério Público

04/07/2026 às 12h08
Por: Redação
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Problemas na educação municipal de Salvador fragilizam discurso de ACM Neto no interior

 

A contradição não está escondida. Enquanto ACM Neto percorre o interior da Bahia defendendo que a educação pública seja tratada como prioridade, Salvador, governada por seu principal aliado político, Bruno Reis, vive uma crise exatamente nessa área. A Prefeitura formalizou o encerramento das atividades da Escola Municipal Paulo Mendes de Aguiar, no Rio Sena, no Subúrbio da capital, mesmo após recomendações e questionamentos do Ministério Público da Bahia.

A fala de Neto foi feita em Nova Viçosa, no extremo-sul baiano, onde o ex-prefeito voltou a associar educação pública à transformação do estado. O problema é que a principal experiência administrativa do seu grupo político na Bahia aponta em outra direção: uma política municipal marcada pelo fechamento de escola pública, pela compra de vagas em instituições privadas e por investigações sobre o uso de recursos da educação.

No centro do caso está a Escola Municipal Paulo Mendes de Aguiar. A unidade atende famílias de uma comunidade popular, tem história no território e, segundo o Ministério Público, possuía estrutura preservada e equipe disponível. Ainda assim, a gestão Bruno Reis decidiu encerrar suas atividades, provocando reação de pais, professores, lideranças comunitárias e movimentos em defesa da educação pública.

A atuação do MPBA dá a dimensão do problema. O órgão recomendou a reabertura imediata da escola, apontou ausência de estudos técnicos suficientes para justificar o fechamento, cobrou diálogo com a comunidade escolar e questionou a transferência de alunos para instituições privadas credenciadas pelo Município.

O Ministério Público também recomendou a suspensão dos credenciamentos e dos repasses financeiros às escolas privadas até que todas as vagas disponíveis na rede pública municipal fossem preenchidas. A medida atingia diretamente o funcionamento do programa Pé na Escola, criado na gestão ACM Neto e ampliado pela administração Bruno Reis.

Segundo o MPBA, alunos da Paulo Mendes de Aguiar foram encaminhados para instituições privadas conveniadas, embora a própria rede municipal da região tivesse capacidade para absorver a demanda da educação infantil. Esse ponto é decisivo porque desloca a discussão do campo administrativo para o campo político: a Prefeitura fechou uma escola pública enquanto mantinha um programa de compra de vagas privadas.

A crise ultrapassou os limites do Rio Sena. Nas redes sociais, publicações ajudaram a amplificar a campanha “Rio Sena resiste”, com críticas ao fechamento da escola e à possibilidade de substituição de vagas públicas por matrículas em instituições privadas vinculadas ao Pé na Escola. A defesa da unidade virou mobilização comunitária.

O Pé na Escola foi apresentado, desde a origem, como alternativa para ampliar o acesso à educação infantil quando não houvesse vaga na rede municipal. Mas o programa passou a ser questionado justamente por poder produzir o efeito contrário: em vez de complementar a rede pública, abrir caminho para o esvaziamento de escolas municipais e para o envio de crianças a unidades privadas.

A própria Prefeitura de Salvador anulou contemplações e matrículas de 2026 do programa após identificar indícios de irregularidades no sistema de vagas. Entre os problemas apontados estavam “redução artificial” da oferta na rede pública, movimentações atípicas e alterações capazes de influenciar o encaminhamento de estudantes para instituições privadas conveniadas.

O caso também chegou ao Ministério Público Federal, que abriu investigação para apurar supostas irregularidades na aplicação de recursos públicos federais no Pé na Escola. A apuração envolve a contratação de vagas privadas com dinheiro da educação e possíveis distorções na execução da política municipal.

É nesse contexto que o discurso de ACM Neto ganha uma camada incômoda. Em Nova Viçosa, ele disse que a educação pública precisa ser prioridade. Em Salvador, a política associada ao seu grupo político é questionada por fechar uma escola pública, deslocar crianças, repassar recursos a instituições privadas e obrigar uma comunidade a resistir para manter uma unidade municipal funcionando.

A disputa, portanto, não é apenas sobre uma frase de campanha. É sobre coerência. Quando Neto promete valorizar a educação pública na Bahia, o caso do Rio Sena recoloca uma pergunta inevitável: qual educação pública está em jogo quando a vitrine administrativa de seu grupo fecha escola municipal e amplia a dependência da rede privada?

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