Trump anuncia morte de chefe do Estado Islâmico, na Síria

0

BAGDÁ e WASHINGTON — O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou, em um pronunciamento na Casa Branca, a morte do fundador e chefe do grupo extremista Estado Islâmico (EI), Abu Bakr al-Baghdadi . O terrorista morreu durante um ataque militar dos Estados Unidos na Síria, neste sábado. Antes de anunciar oficialmente a morte de Abu Bakr, Trump postou no Twitter que “algo enorme” tinha acabado de acontecer.

— Na noite passada, os Estados Unidos levaram o chefe terrorista número um do mundo à justiça. Abu Bakr al-Baghdadi está morto —  anunciou ele.

O presidente americano Donald Trump confirma a morte do líder do Estado Islâmico Abu Bakr al-Baghdadi em uma operação no Norte da Síria Foto: Joshua Roberts / Reuters
O presidente americano Donald Trump confirma a morte do líder do Estado Islâmico Abu Bakr al-Baghdadi em uma operação no Norte da Síria Foto: Joshua Roberts / Reuters

Trump classificou a missão como “impecável” e “ousada” e afirmou que nenhum soldado americano foi morto, ao contrário do que aconteceu com os componentes do Estado Islâmico . O presidente afirmou que Baghdadi explodiu um colete-bomba  que estava usando e que seu corpo foi mutilado, mas testes de DNA confirmaram sua identidade 15 minutos depois. A explosão causou a morte dele e de três filhos. Duas mulheres foram mortas na operação. Elas estavam com coletes-bomba que não foram detonados.

— Ele morreu depois de correr em um túnel sem saída chorando e gritando por todo o caminho. Onze crianças foram retiradas de casa e não foram feridas. Os únicos que restavam eram Baghdadi no túnel e os seus três filhos. Ele chegou ao fim do túnel enquanto nossos cães o perseguiam. Ele detonou  o colete, matando a si e os três filhos. Seu corpo foi mutilado pela explosão — detalha.

Segundo Trump , Baghdadi estava sob vigilância americana havia algumas semanas e missões foram abortadas antes do lançamento da operação bem-sucedida. O comando especial que executou a operação — em preparo há cinco meses, segundo o presidente — foi levado à região por oito helicópteros que atravessaram espaço aéreo controlado pela Rússia, com permissão de Moscou.  Segundo o relato de Trump, o comando — que saiu de uma base no leste do Iraque — ficou sob fogo inimigo ao desembarcar, e abriu buracos nas paredes do prédio onde estava Baghdadi, para evitar possíveis armadilhas na entrada principal. O secretário de Defesa, Mark Esper, disse que a ordem era capturar Baghdadi vivo, mas que o terrorista preferiu explodir-se ao ver-se encurralado.

O presidente  tem enfrentado fortes críticas da oposição democrata e até mesmo de correligionários republicanos por sua decisão, no início do mês, de retirar as tropas americanas do norte da Síria, abrindo asim caminho a uma invasão turca contra os curdos, aliados esseciais dos EUA na derrota do EI. A justificativa da Turquia é estabelecer uma “zona segura” para assentar parte dos mais de 3 milhões de refugiados sírios em seu território e proteger o território turco de grupos curdos que Ancara classifica como terroristas. Trump foi acusado de trair os curdos e possivelmente abrir caminho para o retorno do EI à região. Neste domingo, o presidente disse que não vai voltar atrás em sua decisão de retirar as tropas.

Mazlum Abdi, chefe das Forças Democráticas Sírias (FDS), dominadas pelos combatentes curdos — aliados de Washington na luta contra o EI —, disse no Twitter que a operação foi resultado de um trabalho “conjunto de informação com os Estados Unidos”, sem confirmar, entretanto, a morte de Baghdadi. Um importante funcionário americano confirmou ao New York Times que agentes da Inteligência curda no Iraque e na Síria ajudaram a localizar o esconderijo do chefe terrorista.  Já o comando militar iraquiano indicou ter dado a localização exata do esconderijo do terrorista após interceptar um telefonema de uma de suas mulheres que estava com ele.  Baghdadi era  considerado um dos terroristas mais procurados no mundo,e os EUA ofereciam US$ 25 milhões por qualquer informação sobre ele.

A Turquia — que também realizou uma ofensiva contra os curdos no norte da Síria — afirmou neste domingo que houve uma “coordenação” e “troca de informações” entre Ancara e Washington antes da operação. Se ela for confirmada, seria a maior operação contra um dirigente jihadista desde a morte, em 2 de maio de 2011, de Osama bin Laden, líder da al-Qaeda abatido pelas forças especiais americanas no Paquistão. Um oficial curdo indicou ainda que uma operação conjunta das forças dos EUA e das FDS matou também o porta-voz do EI, Abu al-Hassan al-Mujahir, na Síria.

Aliados americanos, como França e Reino Unido, celebraram a anunciada morte do chefe terrorista, mas alertaram que a ameaça do EI não acabou. O grupo ainda não se pronunciou após o anúncio feito por Trump.

—  A morte de Baghdadi é um importante momento na nossa luta contra o terror, mas a batalha contra o  mal do EI ainda não terminou —  disse o premier britânico, Boris Johnson.

Já a Rússia minimizou a importância da operação militar americana.

— Desde que o Exército do governo sírio, com o apoio das forças aéreas russas, derrotou o Estado Islâmico, em  princípios de 2018, uma enésima “morte” de Abu Bakr al-Bagdadi não tem nenhum significado operacional para a situação na Síria nem para as ações dos terroristas que permanecem em Idlib — disse Igor Konashenkov, porta-voz do Ministério de Defesa russo, deixando no ar uma interrogação sobre a morte do chefe terrorista, já anunciada outras vezes, embora nunca por uma autoridade do porte de Trump.

Analistas também recomendaram cautela contra exagerar o impacto da morte de Baghdadi.

— Não é certo que a perda (de seu chefe), embora seja tão simbólica, afete fundamentalmente a direção operativa do EI, em mãos de líderes aguerridos e experientes —  disse Jean Pierre Filiu, professor do instituto Sciences Po de Paris. —   Nesse sentido, este desaparecimento poderia ter um impacto menor do que o que teve na al-Qaeda a eliminação de Osama bin Laden.

Ataques aéreos causam pânico

De acordo com o OSDH, os ataques aéreos lançados contra os extremistas deixaram nove mortos em Idlib. Oito helicópteros dispararam contra uma casa e um automóvel nos arredores de Barisha, perto de Idlib, detalhou  a ONG.

— Não podemos confirmar nem negar a presença de Bagdadi — afirmou o diretor da OSDH, Rami Abdel Rahman.

Um morador contactado pela AFP na zona de Barisha disse ter ouvido helicópteros e ataques de aviões poucos minutos depois da meia-noite.

— Os aviões voavam a uma altura muito baixa, provocando grande pânico entre as pessoas — relatou à AFP Ahmed al-Hassaui, instalado em um dos acampamentos informais perto do Barisha.

Segundo ele, a operação durou pelo menos até as 3h30m de domingo.

— Tem uma casa destruída, barracas de campanha e um veículo civil danificado, com dois mortos dentro — contou à AFP Abdelhamid, outro morador da Barisha.

O Estado Islâmico foi criado em 2013 e cresceu como um braço da al-Qaeda no Iraque. Em 2014, após romperem laços, os extremistas autoproclamaram um califado cuja capital era em Raqqa, na Síria, instalando um governo de terror sobre uma área do país e do Iraque que, em seu auge, chegou a abranger 88 mil quilômetros quadrados, com quase oito milhões de habitantes.  O grupo executou ou reivindicou dezenas de atentados mundo afora, incluindo os ataques em novembro de 2015 em Paris, que deixaram 131 mortos, à boate gay Pulse, em junho de 2016 em Orlando, com 49 mortes, e o  atropelamento em massa em 14 de julho de 2016, Dia da Bastilha, em Nice, com 86 vítimas fatais.

A derrocada do grupo ocorreu após uma aliança entre grupos curdos reunidos nas Forças Democráticas Sírias e os Estados Unidos, que lideraram uma coalizão internacional que realizou dezenas de melhares de ataques aéreos contra o EI. Em julho de 2017, forças iraquianas recuperaram Mossul, capital do grupo no Iraque, e emoutubro do mesmo ano, caiu Raqqa. Em abril deste ano, as FDS anunciaram o fim do califado.   O grupo, no entanto, expandiu-se para outras áreas, como a África Subsaariana e o Sul e Sudeste da Ásia, onde continua ativo, realizando ataques terroristas. Em abril, um atentado no Sri Lanka deixou mais de 300 mortos, e em agosto, uma explosão reivindicada pelo grupo num casamento em Cabul, Afeganistão, matou mais de 60 pessoas.

 

O Globo