

A avaliação é do teólogo Marco Davi de Oliveira, pastor batista, e autor do livro A Religião mais Negra do Brasil (Editora Ultimato, 2015). “O poder público precisa ir pra base e conversar com os pobres. Necessita se aproximar dessas pessoas, ouvi-las. Precisa aprender a linguagem”, pontua Marco Davi em entrevista descartando estereótipos e clichês contra os crentes.Coordenadora da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, Valéria Zacarias corrobora a opinião do pastor. “Todo o grupo social tem os seus códigos, tem os seus signos”, assinala ao defender “a importância e a urgência de fazer uma comunicação segmentada.” Na opinião dela, a comunicação do poder público precisa ser mais dirigida, “como é feita, por exemplo, no carnaval". "O governo faz campanha direcionada para a comunidade LGBTQIA+ sobre a segurança sexual, não há impedimento legal para se fazer comunicação segmentada.” O sociólogo Paulo Gracino Júnior, professor da Universidade de Brasília (UnB) e autor de A Demanda por Deuses (Editora Uerj/Faperj, 2015), avalia que “pastoras e pastores são interlocutores legítimos da periferia” e que é preciso abrir diálogo com representantes dos fiéis e debater os problemas das comunidades nas igrejas. “O evangélico é uma pessoa empoderada. Eu posso conversar com ele. Ele tem demandas, não só demanda por bens espirituais. Ele tem demanda por saneamento básico, segurança, escola. Essas coisas com o tempo desarmariam a clivagem [divisão] que há entre esquerda e movimento evangélico”, opina o acadêmico, que é especializado em política e religião. Gracino Júnior defende que haja “mais propostas” para resolver problemas apontados pelos evangélicos e “menos fisiologia”. Ele recomenda que no diálogo se abandonem preconceitos. “Tem esse problema que é a ideia de que o evangélico é irracional. Que não vai poder conversar com ele, porque ele é alienado.”
“Elas veem a religião evangélica como estratégia de se manter em periferias que são extremamente violentas, extremamente machistas. A igreja é um lugar [em] que a mulher pode narrar seu sofrimento. Narrar e ser ouvida.”À fala do especialista, a fiel Valdenice Rodrigues acrescenta que, além de contar suas histórias e serem escutadas, as mulheres procuram a igreja para entenderem seus problemas, para se proteger, se sentirem mais seguras e para serem abençoadas. “A igreja para mim é uma família, sabe? É onde a gente conhece outras pessoas, onde a gente se ajuda quando precisa.”
“Ali onde eu estou, as pessoas procuram muito para receber oração. Porque querem uma resposta de Deus. A maioria está com algum problema, se não é casamento ou financeiro, é algo assim. Aí procuram a igreja e pedem oração para a pastora. Ali, elas oram e recebem a benção, depois voltam para contar a benção que receberam”, conta Valdenice.Evangélica desde o nascimento e trabalhadora doméstica, ela mora no Areal, região suburbana a aproximadamente 11 quilômetros do centro de Brasília. Aos domingos, quando a pastora presidente da sua igreja “dá oportunidade”, Valdenice é a “pastora Val” – como se identifica nas redes sociais – e prega no Ministério Todo Poderoso, da Assembleia de Deus. “O Areal é uma comunidade carente, não é classe média, a maioria aqui é do povo. Aqui é humilde”, relata.
“Muitas dessas igrejas, senão quase todas, elas têm programas assistenciais. Elas têm questões muito fortes de combate ao vício de bebida e de droga e outros problemas que enfrentam nas periferias”, assinala o cientista político Leonardo Barreto, que já prestou consultoria a partido político na formação de quadros evangélicos para disputas eleitorais.A extensa malha de igrejas e o imenso contingente de fiéis no país renderam capital político em sucessivas eleições às lideranças evangélicas e seus representantes. Na Câmara dos Deputados, por exemplo, em 2010, a legislatura iniciou-se com uma bancada evangélica formada por 70 deputados. Em 2014, a bancada reduziu-se para 57 parlamentares na Casa. Em 2018, o número de deputados evangélicos voltou a crescer e chegou a 85. Nas últimas eleições, esse número caiu para 75, mas em compensação a bancada de evangélicos no Senado Federal chegou a 13 parlamentares, o maior número da história. A contagem é do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Leonardo Barreto assinala que há diferentes tonalidades nessa representação e que a bancada evangélica atua além da defesa de valores caros aos fiéis que são seus eleitores. “Eles querem transbordar para outros segmentos.” Mais do que serem “atores de veto” contra eventuais pautas tidas como progressistas e identitárias, as lideranças evangélicas desejam se envolver mais com a agenda econômica. “Eles têm dito que são conservadores nos costumes e que são liberais na economia”, descreve Barreto. O cientista político é categórico ao dizer que, independentemente da disputa política, a bancada evangélica defende o regime democrático. “É da natureza deles, está no DNA deles. Afinal de contas, essa ascensão ao poder acontece justamente depois de o país voltar a ter um regime democrático.” Em razão de legislação local, o Dia do Evangélico é feriado em Alagoas e no Distrito Federal. É o caso também em municípios do Entorno do DF, como Formosa, Luziânia e Valparaíso.
Edição: Juliana Andrade
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