
A vitória de Lula é, antes de tudo, um acontecimento importante para a democracia brasileira. Mas a eleição também deixa uma série de reflexões para a Bahia — especialmente para aqueles que, durante o primeiro turno, fizeram campanha de maneira feroz por ACM Neto e convenceram seus eleitores de que aquela era a melhor escolha para o governo do estado.
É preciso colocar o dedo na ferida.
O eleitor é livre. Sempre foi e sempre será.
Cada cidadão tem o direito de escolher seu candidato, mudar de opinião, votar branco, nulo ou simplesmente seguir outro caminho no segundo turno.
Mas existe uma diferença entre a liberdade do eleitor e a responsabilidade de quem exerce liderança política.
Quando um político tem mandato, ocupa espaço público, lidera uma comunidade, influencia milhares de pessoas e pede votos para determinado candidato, ele não está apenas fazendo uma escolha pessoal. Ele está assumindo uma responsabilidade diante daqueles que confiam em sua palavra.
E muitos fizeram isso por ACM Neto.
Fizeram campanha. Pediram votos. Mobilizaram suas bases. Defenderam sua candidatura. Convenceram seus eleitores de que aquele era o caminho.
Depois, diante da eleição presidencial, tentou-se construir a ideia de que seria possível separar ACM Neto de sua posição nacional por meio do discurso do chamado “Lula Neto”.
Mas é preciso dizer com clareza:
ACM Neto nunca foi Lula.
E não há problema algum nisso. Ele tem o direito de defender suas posições políticas, assim como qualquer outro dirigente.
O problema está em tentar vender ao eleitor uma combinação política como se ela representasse uma realidade que nunca existiu.
ACM Neto construiu sua trajetória política em um campo diferente do lulismo. E, no segundo turno presidencial, declarou apoio a Flávio Bolsonaro e anunciou mobilização de sua estrutura política em favor do candidato do PL.
Portanto, não havia “Lula Neto”.
Havia Lula de um lado e ACM Neto de outro.
Havia projetos diferentes.
Havia alianças diferentes.
Havia trajetórias diferentes.
E o eleitor precisava saber disso.
Por isso, aqueles que fizeram campanha por ACM Neto também precisam assumir a responsabilidade por aquilo que defenderam. Não significa obrigar ninguém a votar em Lula. Não significa retirar a liberdade de ninguém.
Significa apenas reconhecer que política exige coerência e compromisso.
Não basta dizer depois que “o eleitor é livre”.
Sim, o eleitor é livre.
Mas quem lidera também tem compromisso.
Quem pede voto precisa explicar claramente o projeto que está apoiando. Precisa assumir suas alianças. Precisa responder pelas consequências políticas das escolhas que ajudou a construir.
A eleição também mostrou a força da Bahia.
O estado teve papel decisivo na votação de Lula e voltou a demonstrar sua importância no cenário político nacional. Jerônimo Rodrigues, por sua vez, havia sido reeleito governador já no primeiro turno, consolidando uma importante base política no estado.
É impossível contar a história da vitória de Lula na Bahia sem reconhecer o peso da estrutura política construída pelo governador e por seus aliados.
A Bahia foi uma das principais bases eleitorais de Lula.
E Candeias também deu sua contribuição.
No município, Lula obteve uma votação expressiva no segundo turno, enquanto Jerônimo também teve maioria no primeiro turno. É uma demonstração de que, em diferentes territórios da Bahia, o eleitor fez suas escolhas considerando não apenas nomes, mas também projetos políticos.
E aqui está outra questão que precisa ser debatida.
Muitos dos que apoiaram ACM Neto no primeiro turno posteriormente aderiram a Lula no segundo turno.
Isso faz parte da democracia.
E deve ser respeitado.
Toda adesão é legítima quando feita de maneira consciente. Todo eleitor pode mudar. Todo político pode rever sua posição.
Mas a mudança também precisa ser compreendida dentro de um contexto.
Não se pode transformar uma adesão posterior em prova de que determinado projeto político sempre esteve ao lado de Lula.
Não esteve.
ACM Neto nunca foi Lula.
E “Lula Neto” nunca existiu como projeto político.
O que existiu foi uma tentativa de aproximar eleitoralmente duas forças distintas.
As urnas, entretanto, falaram.
A Bahia falou.
Candeias falou.
O Nordeste falou.
E o Brasil falou.
A eleição terminou, mas a reflexão precisa continuar.
Porque democracia não é apenas o direito de votar. É também o direito de cobrar coerência daqueles que pedem o nosso voto.
O eleitor pode escolher.
O eleitor pode mudar.
O eleitor pode errar.
O eleitor pode acertar.
Mas aqueles que ocupam espaços de liderança política precisam compreender que sua palavra tem peso.
O eleitor é livre. Mas liderança política é compromisso.
E talvez essa seja uma das grandes lições deixadas por esta eleição: não existe atalho para explicar escolhas políticas.
Não existe “Lula Neto”.
Existe Lula.
Existe ACM Neto.
Existem diferentes partidos, diferentes trajetórias, diferentes alianças e diferentes projetos de país e de estado.
Cabe ao eleitor decidir.
Mas cabe às lideranças políticas ter coragem de dizer, com clareza, de que lado estão.
A Bahia fez sua escolha.
E, mais uma vez, mostrou sua força.
Primeiro, a Bahia resistiu. Depois, o Brasil confirmou sua escolha nas urnas.
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