
A polícia já funcionava no limite. Faltavam agentes, delegados e até viaturas. Ainda assim, em agosto de 2006, no último ano do governo do grupo político de ACM Neto, a Secretaria da Segurança Pública discutia reduzir justamente o atendimento das delegacias de Salvador durante noites, madrugadas, fins de semana e feriados.
A proposta foi revelada pelo jornal A Tarde em 15 de agosto daquele ano, com uma manchete que sintetizava o tamanho da controvérsia: “Governo propõe fim dos plantões nas delegacias”. O plano previa acabar com o cargo de delegado plantonista e concentrar os procedimentos realizados fora do horário administrativo em estruturas distritais.
A sociedade reagiu. O Sindicato dos Delegados de Polícia da Bahia alertou que a mudança prejudicaria principalmente moradores dos bairros populares, justamente quem mais dependia do atendimento público. A entidade denunciava um quadro ainda mais grave: algumas delegacias já não conseguiam cumprir sequer as 24 horas de plantão previstas. A controversa iniciativa do grupo carlista foi duramente rejeitada pela população.
A proposta de enxugamento, portanto, surgia quando a própria estrutura policial apresentava sinais de precariedade. Havia falta de efetivo e de viaturas e dificuldades até para procedimentos básicos. Era nesse cenário que se discutia retirar das delegacias, durante boa parte do dia, a autoridade responsável por tomar decisões imediatas diante de uma ocorrência.
À época, um especialista chegou a dizer que a medida significava fazer a polícia “recuar diante do crime” e poderia funcionar como um “licenciamento da criminalidade”. Para ele, manter uma delegacia aberta, equipada e com delegado disponível também cumpria uma função preventiva: a população precisava ter certeza de que encontraria o Estado quando fosse vítima de um crime.
*Com Jerônimo a realidade é outra*
Duas décadas depois, a estrutura disponível é muito diferente. O Departamento de Polícia Metropolitana relaciona 17 delegacias territoriais em Salvador, além de postos policiais em hospitais e no aeroporto. Unidades como Barris, Liberdade e Plataforma funcionam 24 horas e o sistema passou a contar também com a Delegacia Virtual.
A mudança alcançou pessoal, equipamentos e, sobretudo, tecnologia e inteligência. O governo Jerônimo Rodrigues contratou 9 mil policiais, peritos e bombeiros em pouco mais de três anos.
O combate ao crime passou a ser apoiado por uma estrutura tecnológica que inclui videomonitoramento, reconhecimento facial, câmeras corporais, integração de bancos de dados e centros de comando capazes de acompanhar operações em tempo real. Só em 2024, a SSP instalou 709 novos pontos de imagem, chegando a 3.601 câmeras em funcionamento no estado. O reconhecimento facial foi utilizado em 61 eventos e operações policiais naquele ano.
Em 2025, a tecnologia de reconhecimento facial foi empregada em 66 eventos, enquanto o Centro Integrado de Comando e Controle foi ativado em 25 operações. A SSP também ampliou o uso de estruturas móveis de videomonitoramento e avançou na integração de sistemas e informações para subsidiar o trabalho de inteligência.
A lógica hoje é outra: não se trata apenas de colocar mais policiais nas ruas, mas de usar informação, análise de dados e tecnologia para antecipar movimentos criminosos, localizar foragidos, identificar suspeitos e orientar operações. Drones, câmeras inteligentes, sistemas de reconhecimento facial e centros de monitoramento passaram a fazer parte do aparato cotidiano das forças de segurança.
Em grandes operações, essa estrutura é ainda mais visível. No Carnaval deste ano, por exemplo, o Estado empregou 37 mil policiais, peritos e bombeiros, além de viaturas, aeronaves, drones, embarcações e recursos tecnológicos coordenados a partir do Centro de Operações e Inteligência.
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