
A tentativa do candidato ACM Neto (União Brasil) de apresentar experiências de outros estados como contraponto ao modelo de regulação da saúde adotado na Bahia esbarra em um problema que os próprios dados e reportagens desses estados revelam: não existe, na prática, um modelo de regulação sem filas no SUS.
Levantamentos publicados entre 2024 e 2026 mostram que estados frequentemente citados como referência, como São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Goiás, também enfrentam longas esperas por consultas, exames e cirurgias. Em alguns casos, pacientes aguardam anos por atendimento.
Na Bahia, por outro lado, os indicadores oficiais apontam melhora no tempo de resposta da regulação. Em 2022, 49% dos pacientes regulados conseguiam atendimento em até 24 horas. Em 2025, o índice chegou a 71%. No mesmo período, o percentual de solicitações atendidas em até 48 horas passou de 72% para 81%, enquanto o atendimento em até 72 horas subiu de 81% para 86%. (Bahia.gov.br)
A Central Estadual de Regulação funciona de forma ininterrupta e organiza o acesso a leitos, internações, procedimentos e atendimentos especializados. Segundo a Secretaria da Saúde da Bahia, entre 800 e 900 pacientes deixam diariamente o sistema de regulação para serem atendidos na rede estadual. Em 2025, mais de 329 mil casos foram solucionados pela Central, com 71,93% tendo desfecho em até 24 horas.
Outro exemplo é o Hospital Ortopédico do Estado da Bahia. Desde sua inauguração, em 2024, a unidade passou a integrar a lista única da regulação e, segundo o Governo do Estado, triplicou a oferta de vagas para a Central Estadual de Regulação e reduziu em até 85% o tempo de espera para alguns procedimentos ortopédicos.
São Paulo também enfrenta filas
Em São Paulo, reportagem da Folha de S.Paulo publicada em 20 de maio de 2026 mostrou que 149 mil pessoas aguardavam por cirurgias eletivas apenas na capital paulista. O número havia chegado a 228 mil em 2023, mas continuava expressivo mesmo após a redução registrada nos anos seguintes.
A reportagem contou ainda o caso de uma paciente que aguardava desde 2022 por uma avaliação pré-cirúrgica. Em 2025, ela recebeu uma ligação do hospital não para marcar a cirurgia, mas para confirmar se ainda estava viva e se continuava interessada em esperar.
Em Minas Gerais, quase 500 mil aguardavam cirurgias
Minas Gerais também apresenta um cenário distante de uma suposta solução definitiva para as filas. Em reportagem publicada pelo Estado de Minas em julho de 2024, o jornal apontou que quase 500 mil pessoas aguardavam por cirurgias eletivas no estado.
A matéria relatou casos de pacientes convivendo durante anos com dores, afastamento do trabalho e incerteza sobre quando seriam chamados para realizar os procedimentos.
Santa Catarina também enfrenta dificuldades
Santa Catarina, outro estado frequentemente apresentado como referência administrativa, mantém programas específicos para redução das filas de cirurgias eletivas e mecanismos de acompanhamento da espera. Documentos oficiais mostram que o próprio Estado precisou estruturar políticas para enfrentar o problema.
Em 2026, o Tribunal de Contas de Santa Catarina determinou medidas relacionadas ao acompanhamento de pacientes com câncer e recomendou sistemas informatizados capazes de monitorar o tempo entre suspeita, diagnóstico e início do tratamento, além de mecanismos de gestão e enfrentamento das filas.
O próprio debate sobre os resultados do programa de cirurgias catarinense continua em curso. Em junho de 2026, a Assembleia Legislativa registrou questionamentos sobre os números apresentados pelo governo estadual e citou divergências entre dados do Executivo e levantamentos do Tribunal de Contas.
Rio Grande do Sul tem 670 mil pedidos de consultas
No Rio Grande do Sul, a situação também revela a dimensão do desafio. Em janeiro de 2025, o GZH informou que havia 670 mil pedidos de consultas pelo SUS no estado.
A reportagem identificou pacientes aguardando há anos por atendimento e registrou que, somente em Porto Alegre, 196.936 pessoas esperavam por consultas e outras 152.883 aguardavam exames. O levantamento também apontou que havia pacientes esperando desde 2016 por atendimento especializado.
Goiás registra fila e investigações sobre fraudes
Em Goiás, dados divulgados em abril de 2026 apontavam 23.883 pacientes aguardando por cirurgias eletivas, com tempo médio de espera de 84 dias. O próprio Estado mantém uma política de fila única e sistema centralizado de regulação, criada para organizar o acesso aos procedimentos do SUS.
O estado também enfrentou problemas relacionados à própria gestão das filas. Em abril de 2026, a Polícia Civil deflagrou uma operação para investigar um esquema de venda de vagas no sistema público de saúde. Segundo as investigações, pacientes teriam sido inseridos ou priorizados indevidamente mediante pagamento.
Em julho, uma nova investigação apurou suspeitas de manipulação de dados para transformar cirurgias eletivas em procedimentos emergenciais e, dessa forma, garantir prioridade indevida na fila.
O problema é nacional — e os números precisam ser comparados
Os dados mostram que a discussão sobre regulação não pode ser reduzida à ideia de que um determinado estado teria encontrado uma fórmula capaz de eliminar filas no SUS. A realidade é mais complexa: todos os sistemas enfrentam limitações de oferta, demanda crescente, necessidade de médicos especialistas, disponibilidade de leitos e capacidade hospitalar.
No caso da Bahia, entretanto, os indicadores oficiais mostram uma evolução concreta no tempo de resposta da regulação entre 2022 e 2025. Isso não significa que o problema esteja resolvido ou que não existam pacientes esperando, mas demonstra que houve redução do tempo de espera em diferentes faixas de atendimento.
Assim, ao comparar modelos de regulação, o debate precisa considerar dados, capacidade instalada, número de pacientes atendidos, tempo médio de espera e evolução dos indicadores, e não apenas apresentar experiências de outros estados como se fossem exemplos de sistemas livres de filas.
As experiências de São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Goiás mostram que a existência de filas é um desafio nacional do SUS. A questão central, portanto, não é simplesmente copiar um modelo, mas ampliar a capacidade de atendimento e melhorar continuamente a eficiência da regulação para que o paciente tenha acesso ao tratamento no menor tempo possível.
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