
Dez anos não são um tropeço administrativo. Muito menos uma distração dos órgãos de controle. Se a investigação do Ministério Público da Bahia estiver correta, uma organização criminosa atravessou uma década instalada em áreas estratégicas da Prefeitura de Salvador, manipulando licitações, superfaturando contratos, distribuindo propina e lavando dinheiro público. O prejuízo estimado chega a R$ 38,3 milhões. ACM Neto e Bruno Reis devem explicações aos baianos.
O esquema teria começado por volta de 2016, no segundo mandato de Neto, sobrevivido à troca de prefeito e continuado na administração de Bruno Reis. Não se trata, portanto, de um funcionário que se desviou do caminho nem de uma empresa que burlou solitariamente uma licitação. O Ministério Público descreve uma engrenagem profissionalizada, com empresários, operadores financeiros, servidores, fiscais de contratos e articuladores políticos atuando dentro da Secretaria Municipal de Manutenção da Cidade e da Companhia de Desenvolvimento Urbano de Salvador.
O personagem que melhor conecta os dois governos é Luciano Sandes. Diretor de Manutenção da Infraestrutura entre 2013 e 2020, ele assumiu o comando da Secretaria Municipal de Manutenção em 2021 e, dois anos depois, foi transferido para a Secretaria de Articulação Comunitária e Prefeituras-Bairro. Neto o manteve durante oito anos em uma área diretamente ligada aos contratos investigados. Bruno o promoveu a secretário e preservou seu espaço no primeiro escalão. Agora, Sandes foi afastado pela Justiça, acusado de facilitar a entrada das empresas, interferir na liberação de pagamentos e autorizar aditivos.
A suspeita é de que cinco empresas — G3 Polaris, MP2 Construções, LN Distribuidora, Podium Distribuidora e WLSP Logística — fossem usadas alternadamente para simular concorrência. Enquanto uma vencia, as outras ajudavam a encenar a disputa. Dentro da prefeitura, editais teriam sido moldados, concorrentes eliminados e medições falsas atestadas. Fora dela, operadores fariam o dinheiro circular até chegar aos agentes públicos.
Os números ajudam a retirar o caso do terreno das abstrações. Um contrato da Seman, assinado em 2018 por R$ 8,9 milhões, alcançou R$ 15,2 milhões depois dos aditivos, crescimento de quase 71%. Outro, celebrado pela Desal em 2020 para o fornecimento de grama sintética, saltou de R$ 434 mil para mais de R$ 1,4 milhão. O fiscal José Nazareno Gonçalves teria recebido R$ 118,5 mil de operadores ligados ao grupo.
O vereador George Gordinho da Favela, também afastado, aparece na investigação como articulador político e “gestor de fato” dos interesses empresariais na Seman. Caberia a ele, de acordo com o Ministério Público, usar sua influência para manter contratos e liberar pagamentos. Há uma pergunta ainda sem resposta: se George só assumiu o mandato em 2021, como exercia esse poder antes disso, durante os anos em que o esquema já estaria funcionando?
Nem ACM Neto nem Bruno Reis são investigados, até agora. Isso precisa ser dito. Mas a ausência de acusação criminal não elimina a responsabilidade política. Um ex-prefeito que pretende governar a Bahia e seu sucessor não podem simplesmente observar de longe uma investigação que alcança contratos, servidores e dirigentes escolhidos por suas próprias administrações.
A Prefeitura de Salvador anunciou que abrirá um procedimento administrativo para descobrir se houve dano ao erário. É uma reação desconcertante. O Ministério Público já estima o prejuízo em R$ 38,3 milhões, a Justiça bloqueou bens nesse valor e afastou cinco agentes públicos, mas o controle interno municipal ainda pretende começar a descobrir se alguma coisa aconteceu. Depois de uma década, a vigilância resolveu acordar.
Embora o escândalo tenha ocorrido na Prefeitura de Salvador, ele não diz respeito apenas aos soteropolitanos. O que acontece na capital interessa a todos os baianos. Salvador é a cidade que projeta a Bahia para o país; quando sua administração aparece associada a uma estrutura de corrupção supostamente abrigada durante dez anos, não é somente a imagem de um prefeito ou de um grupo político que se deteriora. É o nome de todos os baianos que acaba arrastado perante o Brasil.
Neto precisa dizer como o esquema teria crescido durante seus mandatos sem ser percebido. Bruno deve explicar por que promoveu e manteve em seu governo um dirigente agora apontado como peça central da engrenagem. Ambos precisam revelar quais controles existiam, quem fiscalizava os contratos, por que os aditivos foram autorizados e o que fizeram diante dos primeiros sinais de irregularidade.
Quem se apresenta como modelo de gestão não pode desaparecer quando chega a conta.
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