Tráfico da Rocinha ameaça com cartazes quem joga lixo na rua da comunidade

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Meses após as chuvas terem causado deslizamentos, enxurradas e até uma morte na Rocinha, o tráfico da favela passou a ameaçar moradores que jogam lixo nos becos e vielas. Cartazes com avisos dos criminosos foram afixados em diferentes pontos da parte alta, uma das mais atingidas pelas tempestades no início do ano. “Por favor, não jogue lixo no beco! Caso contrário, varrerá até a Rua 1. Estamos de olho”, diz o texto do “comunicado”, que cita uma das principais vias da favela.

Uma foto de uma pistola apontada para um dos cartazes instalados pelo tráfico circula entre moradores da favela. Apavorados, eles contam que um homem teria sido agredido por bandidos após ter deixado sacos de lixo em um beco. Procurada, a 11ª DP (Rocinha) disse não ter recebido nenhum registro sobre ameaças ou agressões por conta de sujeira jogada no chão.

O tráfico estaria interessado em impedir o despejo irregular do lixo porque os dejetos contribuem para tragédias quando chove. Com bueiros entupidos, as ruas alagam, impedindo a venda de drogas. O comércio também para quando há deslizamentos.

— A sujeira nas ruas é um problema histórico na Rocinha e, depois das tragédias que aconteceram neste ano com as chuvas, os moradores estão se cobrando mais por mudanças na postura quanto ao lixo. Mas conviver com esse clima de ameaça velado nunca é bom — conta um morador.

Ao longo do primeiro semestre, várias famílias da Rocinha ficaram desabrigadas ou perderam quase tudo por conta das fortes chuvas que atingiram o Rio. Vídeos feitos por moradores durante uma tempestade em fevereiro mostram um homem sendo levado pela água morro abaixo, em meio a uma forte correnteza que cobriu a rua.

500 casas em risco

Em fevereiro, a Justiça chegou a determinar a evacuação de uma área com 500 casas na Rocinha sob risco por conta do deslizamento de pedras que estariam soltas no alto do Morro Dois Irmãos. Dias antes da decisão, uma moradora da favela, a doméstica Adriana Maria dos Santos, de 44 anos, morreu após sua casa desabar com a força das águas.

Já o tráfico, dois anos após a guerra de facções pelo controle da favela, passa por uma fase mais discreta. Após a estabilização da maior facção do Rio no domínio na comunidade, novas invasões de grupos rivais não foram mais registradas. Em 2019, até confrontos entre traficantes e PMs são raridade na favela — apesar de a Rocinha ainda sediar a UPP com o maior efetivo entre todas as unidades.

 

O Globo