Redes sociais estimula desinformação, diz especialista

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Você conhece alguém que compartilha notícias sem lê-las? Segundo uma pesquisa de 2016 da Universidade de Columbia, 59% dos usuários do Twitter repassam links sem clicar neles. Os planos de telefonia chamados zero rating – cujo pacote de dados permite o acesso grátis apenas a aplicativos selecionados – podem favorecer a prática de ler somente os títulos dos textos, segundo especialistas.

Imagine a seguinte situação: você recebe o link de uma reportagem pelo WhatsApp, mas sua franquia de internet móvel não deixa que você acesse o link ou até mesmo pesquise online sobre o assunto sem cobranças adicionais. Segundo a pesquisadora Yasodara Córdova, da Digital Kennedy School da Universidade Harvard, esse cenário agrava a desinformação.

“Quando você entra em um site de jornalismo, tem uma série de fotos e links que contextualizam aquela notícia”, afirma Yasodara. Mas, como não existe zero rating para sites de notícias, você fica restrito a uma fonte – o Facebook, por exemplo – que não carrega esse contexto.”

Além de não poder entender o contexto que cerca uma notícia, usuários com planos de dados limitados têm fontes de informação restritas. Eles não podem escolher qual seu veículo preferido para se informar pela internet.  “Restringir o acesso dos usuários sempre causa uma assimetria de acesso à informação”, diz a pesquisadora. “O Facebook não é um veículo de notícias, é um lugar onde as pessoas dão sua opinião.”

Para Yasodara, o governo deveria estimular a maior oferta de operadoras e planos de serviços como parte de uma iniciativa de combate a fake news. Baratear o custo da internet, segundo ela, seria uma forma mais eficiente de informar os consumidores sem recorrer ao zero rating.

Neutralidade da rede. Os últimos dados da Anatel, de março de 2018, mostram que61,56% dos usuários de telefonia móvel têm planos pré-pagos – não existe, no entanto, detalhamento de quantos aderem ao zero rating. Segundo a BBC, em dezembro de 2017 existiam 58 ofertas do tipo sendo comercializadas.

Em 2016, o Ministério Público Federal (MPF) apresentou uma representação sobre o assunto ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) contra as principais operadoras de telefonia – Vivo, Oi, Tim e Claro.

 

O argumento era o de que a prática de zero rating feria a neutralidade da rede, prevista no Marco Civil da Internet, por privilegiar certos aplicativos. Entidades como a Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Proteste) e a Associação Brasileira de Internet (Abranet) se posicionaram a favor do entendimento do MPF. O inquérito, no entanto, foi arquivado.

Na decisão, o Cade pontuou que os pacotes de zero rating não são contra a neutralidade da rede nem ferem o direito de escolha do consumidor, pois fazem parte de um vasto leque de opções das operadoras. Além disso, o órgão ponderou que, como WhatsApp, Facebook e semelhantes já são os aplicativos mais utilizados, o pacote que libera o acesso a essas ferramentas faz com que sobre mais franquia de dados para acessar outros sites.

“Sob esse ponto de vista, as práticas analisadas poderiam fomentar o acesso a outras fontes de informação, gerando incentivos ao consumo de outros conteúdos e aplicativos”, afirma o texto.

 

 

 

 

Estadão