Eleição presidencial no Uruguai será decidida no segundo turno

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MONTEVIDÉU — Pesquisas de boca de urna mostram que a eleição presidencial no Uruguai será definida no segundo turno entre Daniel Martínez, da governista Frente Ampla, de esquerda, e Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, de centro-direita. Segundo a Cifra Consultoria, Martínez, ex-prefeito de Montevidéu, äparece com 39%, enquanto Lacalle Pou, que disputa sua segunda eleição, teve 29%. De acordo com os números da Equipos Consultores, Martínez chegou a 40,7% e Lacalle Pou teve 29,9% das intenções.

No Uruguai, como no Brasil, a vitória no primeiro turno exige 50% mais um dos votos válidos. A divulgaçao dos resultados começará a ser feita ainda esta noite. Segundo as autoridades, mais de 90% dos eleitores foram às urnas.

Logo depois de votar, Martínez disse que estava sereno e que “fez tudo que precisava ser feito” durante a campanha. Para ele, o Uruguai é hoje um “oásis de certezas” em uma América Latina que enfrenta protestos em Chile, Haiti, Bolívia e Colômbia. Após os números de boca de urna, ele disse que já está analisando possíveis alianças, ressaltando que não vai trocar apoios por cargos.

— Já demos início ao caminho do diálogo — afirmou. — O povo decidirá por certezas, não por um cheque em branco.

Lacalle Pou , por sua vez, também afirmou estar tranquilo, uma vez que “depositou tudo nessa campanha”. Ele fez comparações com sua primeira tentativa de se eleger presidente, em 2014, quando foi derrotado pelo atual chefe de Estado, Tabaré Vazquez, no segundo turno. Para Pou, se trata de “aprender o tempo todo e escutar muito”. No primeiro discurso após a boca de urna, que a mensagem dos eleitores era de que uma alternância de poder era necessária.

— Não fizemos campanha para ganhar. Fizemos campanha para mudar o país — afirmou, antes de agradecer os apoios de pelo menos cinco candidatos, incluindo Ernesto Talvi , do tradicional Partido Colorado. Segundo a boca de urna, ele ficou em terceiro, com 11% das intenções.

Outro nome a defender o voto em Lacalle Pou foi Guido Manini , do Cabildo Aberto, que surpreendeu na reta final da campanha e aparece com 10% nas estimativas. Ex-comandante do Exército, ele foi afastado pelo presidente Tabaré Vazquez após acobertar militares acusados de crimes cometidos durante o período ditatorial (1973-1985). Suas ideias atraíram admiradores da ditadura, aliado a um discurso focado no combate à criminalidade e no conservadorismo. Assim como Talvi, ele também expressou apoio a Lacalle Pou, além de celebrar seus próprios números.

— O Cabildo Aberto interpreta o que quer nossso povo, estamos convencidos de que nosso povo quer mudança.

Guido Manini Ríos, candidato do Cabildo Aberto que ficou em quarto na eleição deste domingo. Candidato é acusado de acobertar generais que cometeram crimes durante a ditadura Foto: Sandro Pereyra / Agência O Globo
Guido Manini Ríos, candidato do Cabildo Aberto que ficou em quarto na eleição deste domingo. Candidato é acusado de acobertar generais que cometeram crimes durante a ditadura Foto: Sandro Pereyra / Agência O Globo

 

Desde os primeiros dias de campanha, que envolveram duras primárias, especialmente no Partido Nacional, ficava claro que o candidato do governo enfrentaria dificuldades para se eleger no primeiro turno. A Frente Ampla, que está no poder há 14 anos consecutivos, enfrentou um segundo turno em duas das três eleições presidenciais desde 2004. Desta vez, no entanto, os analistas veem uma dificuldade maior para a permanência da esquerda no poder, dado que todas as forças de direita e centro-direita tendem a apoiar Lacalle Pou .

Além do presidente, os eleitores decidiram sobre novos membros da Câmara e do Senado, onde a Frente Ampla perdeu a maioria , e votaram em um referendo sobre uma proposta de mudança constitucional conhecida como o projeto “Viver sem medo”.

O plano permitirá penas mais severas, autorização de buscas noturnas, prisão perpétua passível de revisão e a criação de uma guarda nacional militarizada. Organizações de direitos humanos atacaram o projeto e a Frente Ampla o rejeitou por completo, mas Lacalle Pou mostrou-se ambíguo em relação a algumas propostas. Segundo as estimativas feitas por pelo menos dois institutos, o projeto recebeu menos de 50% dos votos favoráveis, impedindo que seja adotado. Ao comentar o provável resultado, o senador do Partido Nacional Jorge Larrañaga viu os números de forma otimista. Apesar da derrota, disse que o projeto é “a opção política mais importante [do país], com a maior quantidade de votos, hoje, no resultado final”.